Eu sou o vazio.
A perspectiva do vazio é enganosamente atrelada com a ideia de ausência, a saber, ausência de matéria, de sentimentos ou da inexistência pura e simples de qualquer fenômeno possível, evocando aqui a ideia fenomenológica no sentido Husserliano. Gosto de imaginar o vazio como a contrapartida da realidade capitalista, enquanto retiramos da faceta ontológica a parte "humana" da existência, o homus economicus, sujeito maximizador da pura realidade kantiana, factual, produto ou produtor, agora parte de um bioma, de um organismo que a princípio foi criado por este mesmo sujeito racionalizante e acumulador, agora simbionte de um sistema que basicamente rege todas as instâncias da vida de tudo, direta ou indiretamente. Tudo aqui encerra a noosfera - com seus preceitos regimentares da sociedade ocidental-industrial - abrange indiretamente populações que por consequência das forças planetárias destrutivas do avanço capitalista sucumbem, e por todos os entes não-humanos que são afligidos pelas razões já descritas.
Ser vazio é ser contra todo o meio que absorve a perspectiva social de nosso tempo. Acionando Nietzsche, imediatamente somos compelidos a observar o abismo, admirar o vasto vácuo (in)ocupado e permitir que o abismo nos olhe de volta, que nos absorva. A lenta assimilação deste processo, permite ver possibilidades que estão além de uma realidade construída por processos burocráticos, miríades de transações econômicas, contratos, propriedades, etc. A existência é guiada puramente através da racionalidade econômica, que antes estruturava apenas as relações mais primárias das bases de troca e que hoje se tornou um ente, um ser abstrato na sua concepção, porém com tentáculos muito concretos. Não se dar conta da mera possibilidade de um estilo de vida que pode minimamente conceber algo que extrapole os limites da era do capital é o grande desafio de hoje. Discordo de Fischer (2009), quando disse que a derrocada do capitalismo foi na grande crise dos sub primes dos bancos Estadunidenses e que hoje sobreviveria tal qual um zumbi, pois é inapto a morrer. Não se mata o que não morre, e neste sentido como matar algo que em tese não tem substituto? Se brincarmos com o conceito metafísico de Egrégora, podemos conceber que o capitalismo não morre, justamente porque está na mente de bilhões de seres humanos. É um Deus, uma entidade metamórfica e adaptativa que não sucumbe ao mero desdém da contabilidade gananciosa do mercado financeiro. Se não morre, tampouco vira zumbi, para isso seria necessária uma escalada global de descrença...o que ao meu ver está longe de acontecer.
Neste aspecto, ser vazio é tentar desconectar sua mente da grande esfera comportamental-orientada que estamos inseridos. Os nossos corpos estão inerentemente presos fazendo uma alusão ao filme Matrix das irmãs Wachowski, alimentamos e somos alimentados por essa "rede", contudo, temos a chance de pelo menos libertarmos nossas mentes, de ver o que precisa ser visto, de encarar a escuridão, porque não sabemos exatamente o que podemos encontrar além dessa "realidade". Algumas pessoas estão inerentemente confinadas nesse modelo e talvez não exista meios de extraí-las, outras, são as "administradoras" do sistema que não querem te ver fora dele. Uma mente desconectada, uma mente "vazia", será uma oficina do diabo que irá atentar a mudar o sistema, a desconectar uma próxima.
O vazio é visto como lugar de ocupação do mal, pois tende a ser preenchido por ideias "diabólicas". Nas artes esotéricas ocidentais chamamos de "caminho da mão esquerda" (Via Sinistrae) uma das partes dicotomizadas de um pensamento maniqueísta. Mas este não é o ponto, a ideia aqui é de que tudo o que é "esquerdizado" é ruim. O livre pensador, a filosofia de esquerda, o cumprimento de mão, a feminilidade, entre outros. Na obra A proeminência da mão direita de Robert Hertz observamos exatamente a dicotomia entre o sagrado e o profano em uma perspectiva original do autor a respeito da observação etnográfica concentrando aspectos dos usos e agenciamentos das mãos sob a sombra do guarda-chuvas da religão.
Neste sentido, o vazio poder ser evocado como algo que profana a ordem da mercadoria. A partir do momento, que criamos um mundo ausente de significados e sentidos, não deixamos de profana-lo. Assim como os zen-budistas, nós entregamos ao vazio das coisas com um fundamento do nosso próprio pensamento. Como um niilismo criativo, que nos mobilizar a profanar as ruínas do mundo mercadoria.
Dessa forma, acredito que uma das formas de se combater o realismo capitalista, seria se apropriar do niilismo criativo. Elaborando ideias e pensamentos que tenho o interesse de desfeitichar as relações mercantis de produção, ou melhor, profana-las. O Nada e o Vazio, aqui, são mobilizados como forças sociais de contestação a dominação, exploração e alienação produzidos pelo modo de produção. Basta de produção. Queremos a socialização. Basta de trabalho explorado. Queremos o trabalho criativo. Basta de horas de vida desperdiçadas. Queremos as horas de vidas para os estudos, reflexões, lazer e diversão.

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