Somos vítimas, reféns e algozes de uma violência sistêmica. Essa violência está presente nas casas, nos locais de trabalho, escolas, política, nas ruas, em sonhos ou na falta deles. Enfim, é uma violência que nos atinge no espaço privado e espaço público.
Tentar nomear está violência é o objetivo dessa reflexão catártica e caótica.
A pressão por produtividade, concorrência e competitividade se chocam com as desigualdades, diferenças e discriminações pelas relações sociais. São essas gradações de alteridade que organizam o caótico e esgotante o mundo social. A riqueza que provem do modo de produção não tem sido capaz de resolver problemas básicos como acesso a educação, saúde e cultura. A violência é parte dessa contradição que nós mantém dominados numa teia de significados ambivalentes. Somos o Capital que se sentem livre de coerções para explorar a natureza ao mesmo tempo, que configuramos a vida social a partir do Trabalho. O Capital explora o Trabalho. E o Trabalho não tem outra alternativa se não aceitar a dominação. O Trabalho cansa. Já o Capital, não.
Para filosofo coreano Byung-Chul Han, a época em que vivemos pode ser chamada de "sociedade do cansaço". Uma sociedade marcada por patologias sociais relacionadas ao violência neuronal a que estamos submetidos.
Complementar as discussões propostas por Han, o sociólogo britânico Mark Fisher aponta que o regime de dominação neoliberal imposto pelo "realismo capitalista" tem adoecido a classe trabalhadora através de mecanismos de coerções psíquicas. Esses mecanismos produzem e reproduzem frustrações sociais e sentimento de culpa generalizado. Tornando os indivíduos carentes de um horizonte político alternativo a realidade imposta pelo regime de acumulação.
A violência sistêmica funciona como uma regra moral da sociedade contemporânea. E ela que tem transformado a depressão em norma. Numa sociedade depressiva, todos irão sofrer com sintomas depressivos. Somos fantasmas vivos. Depressivos de nossas próprias faculdades mentais e forças físicas. Fantasmas depressivos sugados mentalmente e fisicamente por uma máquina centralizadora de riquezas e produtora de bilionários.
Os interesses dos bilionários, não estão voltados para os lamentos clínicos de fantasmas depressivos, que até o momento, se mostram incapazes de mobilizar projetos políticos de transformação da sociedade. Os fantasmas depressivos não querem a revolução. Afinal, estão cansados demais para ela.
Acabamos sendo vítimas, reféns e algozes da violência sistémica ao cumprir, executar e organizar a vida a partir de leis de mercado que nos dominam, nos exploram e nos cansam. A violência nos deixa esgotados.
A violência subjetiva é uma engrenagem simbólico do realismo capitalista. Como diz Han:
“A lamúria do indivíduo depressivo de que nada é possível só se torna possível numa sociedade que crê que nada é impossível. Não-mais-poder-poder leva a uma autoacusação destrutiva e a uma autoagressão. O sujeito de desempenho encontra-se em guerra consigo mesmo. O depressivo é o inválido dessa guerra internalizada. A depressão é o adoecimento de uma sociedade que sofre sob excesso de positividade. Reflete aquela humanidade que está em guerra consigo mesma”. (Byung-Chul Han, 2017)
A violência subjetiva é um símbolo dessa guerra interna chamada depressão. Mas, qual seria o fundamento da autoacusação e a autoagressão que tem abatido parte considerável da sociedade? O sujeito do desempenho sofre sozinho uma dor moral. Vive uma tristeza particular. Acusa-se a si próprio. Quando na verdade, reclama de um sentimento que é de todos. Os trabalhadores estão cansados! A chave da reação pode estar na compreensão do monstro devorador de trabalho. O objetivo é tentar decifra-lo para conseguirmos descansar.

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