A passagem do tempo é uma forma de fugir do tédio.
10.3.24
Somos inúteis?
A carta redigida por Mark Fischer em seu "Realismo Capitalista" - ensaio que propõe ao leitor pensar uma realidade alternativa, ou melhor, como seria o mundo sem o capitalismo. Pensar uma realidade que não fosse uma representação da lógica do capital. Além de adoecer as pessoas, o realismo capitalismo, é uma forma de morte.
Morte da subjetividade.
Nós nos tornamos inúteis diante ao assombro de uma vida sem sentido. Ou melhor, de uma vida dedica ao trabalho que explora e mata.
Talvez, Fisher, concordaria: o realismo capitalista é uma forma de morrer.
2.6.23
1.6.23
Ilusão do ego
Há sempre um outro sopro no meu, um outro pensamento no meu, uma outra posse no que possuo, mil coisas e mil seres implicados nas minhas complicações: todo verdadeiro pensamento é uma agressão. Não se trata das influências que sofremos, mas das insuflações, flutuações que somos, com as quais nos confundimos.
6.4.23
Poema: Charles Baudelaire [Embriaguem-se]
Charles Baudelaire é um dos escritores cuja obra faz uma viagem aturdida por entre os escombros de nossa humanidade. Ela não interage, ela funde-se entre o turbilhão de certezas, dores, sofismas e lacerações que a mente resguarda. Nada mais agradável do que a ebriedade nas vésperas de um feriado, principalmente para aqueles cujo corpo é desvanecido lentamente, dia após dia, desaparecendo entre as pilhas de mercadorias produzidas. Dito isto, o poema retirado de "As flores do mal", traz um alento (ou não) para mentes inquietas porém cansadas.
Embriaguem-se
É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.
Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.
3.4.23
Depressão: símbolo de uma guerra interna
Somos vítimas, reféns e algozes de uma violência sistêmica. Essa violência está presente nas casas, nos locais de trabalho, escolas, política, nas ruas, em sonhos ou na falta deles. Enfim, é uma violência que nos atinge no espaço privado e espaço público.
Tentar nomear está violência é o objetivo dessa reflexão catártica e caótica.
A pressão por produtividade, concorrência e competitividade se chocam com as desigualdades, diferenças e discriminações pelas relações sociais. São essas gradações de alteridade que organizam o caótico e esgotante o mundo social. A riqueza que provem do modo de produção não tem sido capaz de resolver problemas básicos como acesso a educação, saúde e cultura. A violência é parte dessa contradição que nós mantém dominados numa teia de significados ambivalentes. Somos o Capital que se sentem livre de coerções para explorar a natureza ao mesmo tempo, que configuramos a vida social a partir do Trabalho. O Capital explora o Trabalho. E o Trabalho não tem outra alternativa se não aceitar a dominação. O Trabalho cansa. Já o Capital, não.
Para filosofo coreano Byung-Chul Han, a época em que vivemos pode ser chamada de "sociedade do cansaço". Uma sociedade marcada por patologias sociais relacionadas ao violência neuronal a que estamos submetidos.
Complementar as discussões propostas por Han, o sociólogo britânico Mark Fisher aponta que o regime de dominação neoliberal imposto pelo "realismo capitalista" tem adoecido a classe trabalhadora através de mecanismos de coerções psíquicas. Esses mecanismos produzem e reproduzem frustrações sociais e sentimento de culpa generalizado. Tornando os indivíduos carentes de um horizonte político alternativo a realidade imposta pelo regime de acumulação.
A violência sistêmica funciona como uma regra moral da sociedade contemporânea. E ela que tem transformado a depressão em norma. Numa sociedade depressiva, todos irão sofrer com sintomas depressivos. Somos fantasmas vivos. Depressivos de nossas próprias faculdades mentais e forças físicas. Fantasmas depressivos sugados mentalmente e fisicamente por uma máquina centralizadora de riquezas e produtora de bilionários.
Os interesses dos bilionários, não estão voltados para os lamentos clínicos de fantasmas depressivos, que até o momento, se mostram incapazes de mobilizar projetos políticos de transformação da sociedade. Os fantasmas depressivos não querem a revolução. Afinal, estão cansados demais para ela.
Acabamos sendo vítimas, reféns e algozes da violência sistémica ao cumprir, executar e organizar a vida a partir de leis de mercado que nos dominam, nos exploram e nos cansam. A violência nos deixa esgotados.
A violência subjetiva é uma engrenagem simbólico do realismo capitalista. Como diz Han:
“A lamúria do indivíduo depressivo de que nada é possível só se torna possível numa sociedade que crê que nada é impossível. Não-mais-poder-poder leva a uma autoacusação destrutiva e a uma autoagressão. O sujeito de desempenho encontra-se em guerra consigo mesmo. O depressivo é o inválido dessa guerra internalizada. A depressão é o adoecimento de uma sociedade que sofre sob excesso de positividade. Reflete aquela humanidade que está em guerra consigo mesma”. (Byung-Chul Han, 2017)
A violência subjetiva é um símbolo dessa guerra interna chamada depressão. Mas, qual seria o fundamento da autoacusação e a autoagressão que tem abatido parte considerável da sociedade? O sujeito do desempenho sofre sozinho uma dor moral. Vive uma tristeza particular. Acusa-se a si próprio. Quando na verdade, reclama de um sentimento que é de todos. Os trabalhadores estão cansados! A chave da reação pode estar na compreensão do monstro devorador de trabalho. O objetivo é tentar decifra-lo para conseguirmos descansar.
25.3.23
Eu sou o vazio.
Eu sou o vazio.
A perspectiva do vazio é enganosamente atrelada com a ideia de ausência, a saber, ausência de matéria, de sentimentos ou da inexistência pura e simples de qualquer fenômeno possível, evocando aqui a ideia fenomenológica no sentido Husserliano. Gosto de imaginar o vazio como a contrapartida da realidade capitalista, enquanto retiramos da faceta ontológica a parte "humana" da existência, o homus economicus, sujeito maximizador da pura realidade kantiana, factual, produto ou produtor, agora parte de um bioma, de um organismo que a princípio foi criado por este mesmo sujeito racionalizante e acumulador, agora simbionte de um sistema que basicamente rege todas as instâncias da vida de tudo, direta ou indiretamente. Tudo aqui encerra a noosfera - com seus preceitos regimentares da sociedade ocidental-industrial - abrange indiretamente populações que por consequência das forças planetárias destrutivas do avanço capitalista sucumbem, e por todos os entes não-humanos que são afligidos pelas razões já descritas.
Ser vazio é ser contra todo o meio que absorve a perspectiva social de nosso tempo. Acionando Nietzsche, imediatamente somos compelidos a observar o abismo, admirar o vasto vácuo (in)ocupado e permitir que o abismo nos olhe de volta, que nos absorva. A lenta assimilação deste processo, permite ver possibilidades que estão além de uma realidade construída por processos burocráticos, miríades de transações econômicas, contratos, propriedades, etc. A existência é guiada puramente através da racionalidade econômica, que antes estruturava apenas as relações mais primárias das bases de troca e que hoje se tornou um ente, um ser abstrato na sua concepção, porém com tentáculos muito concretos. Não se dar conta da mera possibilidade de um estilo de vida que pode minimamente conceber algo que extrapole os limites da era do capital é o grande desafio de hoje. Discordo de Fischer (2009), quando disse que a derrocada do capitalismo foi na grande crise dos sub primes dos bancos Estadunidenses e que hoje sobreviveria tal qual um zumbi, pois é inapto a morrer. Não se mata o que não morre, e neste sentido como matar algo que em tese não tem substituto? Se brincarmos com o conceito metafísico de Egrégora, podemos conceber que o capitalismo não morre, justamente porque está na mente de bilhões de seres humanos. É um Deus, uma entidade metamórfica e adaptativa que não sucumbe ao mero desdém da contabilidade gananciosa do mercado financeiro. Se não morre, tampouco vira zumbi, para isso seria necessária uma escalada global de descrença...o que ao meu ver está longe de acontecer.
Neste aspecto, ser vazio é tentar desconectar sua mente da grande esfera comportamental-orientada que estamos inseridos. Os nossos corpos estão inerentemente presos fazendo uma alusão ao filme Matrix das irmãs Wachowski, alimentamos e somos alimentados por essa "rede", contudo, temos a chance de pelo menos libertarmos nossas mentes, de ver o que precisa ser visto, de encarar a escuridão, porque não sabemos exatamente o que podemos encontrar além dessa "realidade". Algumas pessoas estão inerentemente confinadas nesse modelo e talvez não exista meios de extraí-las, outras, são as "administradoras" do sistema que não querem te ver fora dele. Uma mente desconectada, uma mente "vazia", será uma oficina do diabo que irá atentar a mudar o sistema, a desconectar uma próxima.
O vazio é visto como lugar de ocupação do mal, pois tende a ser preenchido por ideias "diabólicas". Nas artes esotéricas ocidentais chamamos de "caminho da mão esquerda" (Via Sinistrae) uma das partes dicotomizadas de um pensamento maniqueísta. Mas este não é o ponto, a ideia aqui é de que tudo o que é "esquerdizado" é ruim. O livre pensador, a filosofia de esquerda, o cumprimento de mão, a feminilidade, entre outros. Na obra A proeminência da mão direita de Robert Hertz observamos exatamente a dicotomia entre o sagrado e o profano em uma perspectiva original do autor a respeito da observação etnográfica concentrando aspectos dos usos e agenciamentos das mãos sob a sombra do guarda-chuvas da religão.
Neste sentido, o vazio poder ser evocado como algo que profana a ordem da mercadoria. A partir do momento, que criamos um mundo ausente de significados e sentidos, não deixamos de profana-lo. Assim como os zen-budistas, nós entregamos ao vazio das coisas com um fundamento do nosso próprio pensamento. Como um niilismo criativo, que nos mobilizar a profanar as ruínas do mundo mercadoria.
Dessa forma, acredito que uma das formas de se combater o realismo capitalista, seria se apropriar do niilismo criativo. Elaborando ideias e pensamentos que tenho o interesse de desfeitichar as relações mercantis de produção, ou melhor, profana-las. O Nada e o Vazio, aqui, são mobilizados como forças sociais de contestação a dominação, exploração e alienação produzidos pelo modo de produção. Basta de produção. Queremos a socialização. Basta de trabalho explorado. Queremos o trabalho criativo. Basta de horas de vida desperdiçadas. Queremos as horas de vidas para os estudos, reflexões, lazer e diversão.




