6.4.23

Poema: Charles Baudelaire [Embriaguem-se]


Charles Baudelaire é um dos escritores cuja obra faz uma viagem aturdida por entre os escombros de nossa humanidade. Ela não interage, ela funde-se entre o turbilhão de certezas, dores, sofismas e lacerações que a mente resguarda. Nada mais agradável do que a ebriedade nas vésperas de um feriado, principalmente para aqueles cujo corpo é desvanecido lentamente, dia após dia, desaparecendo entre as pilhas de mercadorias produzidas. Dito isto, o poema retirado de "As flores do mal", traz um alento (ou não) para mentes inquietas porém cansadas. 

Embriaguem-se

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.


Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se!

Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. 


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3.4.23

Depressão: símbolo de uma guerra interna



Somos vítimas, reféns e algozes de uma violência sistêmica. Essa violência está presente nas casas, nos locais de trabalho, escolas, política, nas ruas, em sonhos ou na falta deles. Enfim, é uma violência que nos atinge no espaço privado e espaço público. 

 Tentar nomear está violência é o objetivo dessa reflexão catártica e caótica. 

A pressão por produtividade, concorrência e competitividade se chocam com as desigualdades, diferenças e discriminações pelas relações sociais. São essas gradações de alteridade que organizam o caótico e esgotante o mundo social. A riqueza que provem do modo de produção não tem sido capaz de resolver problemas básicos como acesso a educação, saúde e cultura. A violência é parte dessa contradição que nós mantém dominados numa teia de significados ambivalentes. Somos o Capital que se sentem livre de coerções para explorar a natureza ao mesmo tempo, que configuramos a vida social a partir do Trabalho. O Capital explora o Trabalho. E o Trabalho não tem outra alternativa se não aceitar a dominação. O Trabalho cansa. Já o Capital, não. 

Para filosofo coreano Byung-Chul Han, a época em que vivemos pode ser chamada  de "sociedade do cansaço". Uma sociedade  marcada por patologias sociais relacionadas ao violência neuronal a que estamos submetidos. 

Complementar as discussões propostas por Han, o sociólogo britânico Mark Fisher aponta que o regime de dominação neoliberal imposto pelo "realismo capitalista" tem adoecido a classe trabalhadora através de mecanismos de coerções psíquicas. Esses mecanismos produzem e reproduzem frustrações sociais e sentimento de culpa generalizado. Tornando os indivíduos carentes de um horizonte político alternativo a realidade imposta pelo regime de acumulação. 

A violência sistêmica funciona como uma regra moral da sociedade contemporânea. E ela que tem transformado a depressão em norma. Numa sociedade depressiva, todos irão sofrer com sintomas depressivos. Somos fantasmas vivos. Depressivos de nossas próprias faculdades mentais e forças físicas. Fantasmas depressivos sugados mentalmente e fisicamente por uma máquina centralizadora de riquezas e produtora de bilionários. 

 Os interesses dos bilionários, não estão voltados para os lamentos clínicos de fantasmas depressivos, que até o momento,  se mostram incapazes de mobilizar projetos políticos de transformação da sociedade. Os fantasmas depressivos não querem a revolução. Afinal, estão cansados demais para ela. 

 Acabamos sendo vítimas, reféns e algozes da violência sistémica ao cumprir, executar e organizar a vida a partir de leis de mercado que nos dominam, nos exploram e nos cansam. A violência nos deixa esgotados. 

A violência subjetiva é uma engrenagem simbólico do realismo capitalista. Como diz Han: 

 “A lamúria do indivíduo depressivo de que nada é possível só se torna possível numa sociedade que crê que nada é impossível. Não-mais-poder-poder leva a uma autoacusação destrutiva e a uma autoagressão. O sujeito de desempenho encontra-se em guerra consigo mesmo. O depressivo é o inválido dessa guerra internalizada. A depressão é o adoecimento de uma sociedade que sofre sob excesso de positividade. Reflete aquela humanidade que está em guerra consigo mesma”. (Byung-Chul Han, 2017)

A violência subjetiva é um símbolo dessa guerra interna chamada depressão. Mas, qual seria o fundamento da autoacusação e a autoagressão que tem abatido parte considerável da sociedade? O sujeito do desempenho sofre sozinho uma dor moral. Vive uma tristeza particular. Acusa-se a si próprio. Quando na verdade, reclama de um sentimento que é de todos. Os trabalhadores estão cansados! A chave da reação pode estar na compreensão do monstro devorador de trabalho. O objetivo é tentar decifra-lo para conseguirmos descansar. 


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