6.4.23

Poema: Charles Baudelaire [Embriaguem-se]


Charles Baudelaire é um dos escritores cuja obra faz uma viagem aturdida por entre os escombros de nossa humanidade. Ela não interage, ela funde-se entre o turbilhão de certezas, dores, sofismas e lacerações que a mente resguarda. Nada mais agradável do que a ebriedade nas vésperas de um feriado, principalmente para aqueles cujo corpo é desvanecido lentamente, dia após dia, desaparecendo entre as pilhas de mercadorias produzidas. Dito isto, o poema retirado de "As flores do mal", traz um alento (ou não) para mentes inquietas porém cansadas. 

Embriaguem-se

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.


Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se!

Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. 


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